LIÇÃO DE VIDA

LIÇÃO DE VIDA

Alex Scott

Ele tinha ido longe demais. Desde o início ele foi contra. Porém os amigos persuasivos como sempre são o convenceu. Agora ele iria sofrer as consequências.

Gabriel esperava sentado em um banco de madeira. Logo a cima dele estava um mural com avisos de desaparecidos pregados com tachinhas. A frente dele um balcão com uma secretaria de óculos acima do peso digitando no computador. Ela se limitava a olhar para o garoto com os olhos acima dos óculos.

-Estou encrencado – pensou Gabriel.

O relógio marcava 23:30, Gabriel fez as contas e já estava lá há 30 minutos.

– O que vou falar para meus pais? Meu Deus, vou ficar de castigo para sempre. Isso se eu não morrer antes com a surra que meu pai vai me dar.

– Gabriel Montes. – secretaria gritou – o promotor quer você na sala dele, urgente.

– Sim senhora. – Gabriel se levantou, seu corpo sentiu o peso de ter ficado muito tempo sentado. Ele entrou na sala.

A sala não era grande, havia uma mesa de mogno com uma placa escrita: Promotor Pedro Rocha.

Havia uma estante atrás cheia de livros com capas coloridas. Assim que ele entrou viu um quadro de Napoleão na pose clássica com o cavalo. O promotor era um homem de meia-idade, cabelos grisalhos e uma postura que demonstrava poder e autoridade.

– Por favor, sente-se rapaz.

Gabriel sentou na cadeira de madeira e colocou as mãos no colo, ele tinha uma aparência abatida.

– Imagino que saiba por que está aqui. – Começou Pedro.

– Sim senhor.

– Sabe o que fazemos com garotos que não se comportam direito? – O tom do promotor era de ameaça, ele era famoso por sua rigidez e autoridade.

– Não senhor.

– Nós pegamos esses desgraçados como você e mandamos direto para o internato até completarem 18 anos. Me ouviu seu pedaço de merda?

– Sim, ouvi – Gabriel se assustou e seus olhos começaram a lacrimejar.

– Não adianta chorar agora rapazinho, na hora de depredar um órgão público garanto que deu muitas risadas e nem passou pela sua cabeça a idiotice que estava prestes a fazer.

– Estou frito – pensou Gabriel.

– Diga rapazinho, Você estava com mais alguém?

– Não, estava apenas eu. – Gabriel respondeu se segurando para não chorar.

– O segurança da prefeitura disse que ouviu mais gritos e uma voz de menina.

– Esse segurança está delirando senhor.

A porta abriu e entrou um casal. Um homem de porte militar robusto, barba e cabelos aparados e uma mulher de cabelos Chanel, com um vestido amarelo.

– Oh meu bebezinho – a mãe foi para cima do garoto apertando as bochechas e verificando algum machucado. Ela então deu um tapa na sua cara – Isso é para você nunca mais fazer esse tipo de coisa seu moleque. O pai apenas se limitava a olhar duro, Gabriel abaixou o rosto.

– Senhor e Senhora Montes, seu filho foi pego pichando o prédio da prefeitura. Desconfio que ele estava com mais alguém. Porem ele se nega a delatar seus cumplices. Marquei uma audiência com o juizado para que ele receba a devida punição.

A mãe começa a chorar e o pai olha com mais raiva ainda para o filho. O promotor Rocha então imprimiu a intimação.
Intimação: Compareça no dia 22 as 08:00 para a Audiência. Juiz Marcos Melo. 

Os três deixam o escritório. A viagem de volta durou uma eternidade. O pai ficou a viagem inteira mandando indiretas, contou do filho de um conhecido que largou os estudos e foi vender drogas após depredar a prefeitura. A mãe ficava dando bronca, falando que irá tirar a televisão, celular e computador.

Chegou o dia da audiência. Gabriel estava vestido com um terno preto, e a audiência começou na hora. O juiz era um senhor de 56 anos, cabelos brancos, vestia uma toga preta.

– Gabriel Montes, foi relatado que estava pichando o muro da prefeitura no dia 12 de Julho. Procede?

– Sim senhor.

– o que tem a dizer sobre isso?

– Estou profundamente arrependido, não queria ter feito o que fiz.

– Que bom, fico feliz. Mas terei que impor uma punição.

– Condeno o menor Gabriel Montes a 1 mês de trabalhos voluntários. Começando segunda as 8 da manhã.

O seu trabalho voluntario era trabalhar em um antiquário. O seu pai o levou, e no meio do caminho dava um duro sermão sobre sua infância que se resumia a acordar as 5 da manhã para ajudar o pai a tirar leite da vaca na fazenda. O garoto se limitava a olhar para fora vendo a paisagem de prédios e casas.

A loja ficava na esquina, do lado tinha um café bistrô com mesas do lado de fora e um cheiro de doce mil folhas exalava no ar. A lojinha como era chamada, tinha uma porta de madeira e uma vitrine e exposto estava alguns artigos de antiguidades. A toda

vez que a porta abria fazia um som de sino. Tinha várias estantes, todas lotadas de “velharias”, de relógios de cuco até lâmpadas de óleo antigas.

O dono da loja se chamava Joaquim Vieira, aparentava ter 78 anos; era magro, tinha cabelo grisalho, não chegava a ser branco, usava um paletó cinza e óculos. Ele estava atendendo um senhor. Ele insistia que seria ideal comprar uma peça do século XIX para colocar na estante de casa, mas o cliente não estava concordando. Até que por fim o cliente saiu da loja e Joaquim colocou as mãos no rosto e olhou para o garoto de aspecto atlético, cabelos castanhos.

– Vai comprar alguma coisa ou vai ficar só me olhando aqui? – Disse o senhor um pouco irritado.

– Eu sou o Gabriel Montes. Fui condenado a trabalhar aqui por um mês.

– Ah era só o que me faltava um delinquente juvenil na minha loja. Estou vendo que terei perdas na loja.

– Olha aqui moço, eu também não queria estar aqui. Mas me obrigaram.

– Ah então estamos quites, eu também não queria estar aqui. Queria estar mexendo com meus relógios antigos. Sabia que eu tenho um legítimo Carrilhão Sx

Westminster, ele é fantástico, está um pouco estragado e velho. Mas com uma boa pintura fica ótimo.

– o que é isso?

– Carrilhão Sx

Westminster, é um relógio de pendulo que foi fabricado em 1810, feito a mão por monges alemães, uma verdadeira relíquia. Mas esse não estará à venda. Nunca.

– Ah que interessante – Gabriel ironizou.

– Mas você não entende nada disso. Vocês jovens preferem aqueles relógios digitais sem graça e sem história. Chega de papo. Pegue uma vassoura e comece varrendo a loja.

O garoto pegou a vassoura que estava atrás da porta e começou a varrer a loja enquanto Joaquim terminava de arrumar uma estante de livros velhos. Gabriel não era acostumado a ser muito responsável. Quando Joaquim foi para o fundo da loja Gabriel colocou os fones de ouvidos e ficou escutando música enquanto varria. Joaquim saiu do fundo da loja com um prato antigo e um lenço na mão e viu o menino mexendo a cabeça segurando a vassoura perto de um vaso da dinastia Yong.
– EI GAROTO. – Joaquim gritou e o garoto se assustou quase derrubando o vaso.

O homem foi até ele e arrancou os fones de ouvidos do Gabriel.
– Sabe quanto custa esse vazo? Seu pirralho.

– Ah… R$ 150,00 reais?

– NÃO. Custa mais que esse seu aparelho de escutar música.

– Vejo que os jovens de hoje não entendem nada de história.

– Já terminei de varrer, o que tem mais para eu fazer aqui?

Depois de tirar a poeira das prateleiras, limpar o estoque, ajudar Joaquim a catalogar alguns livros. No final do dia Gabriel estava exausto, apenas queira ir para casa. Ele retirou o avental e jogou na mesa enquanto Joaquim estava ocupado polindo uma arma antiga da época do Segundo Império.

– Até amanhã.

– Durma cedo. Amanhã irão chegar mais alguns artigos que precisam ser catalogados.

Já era noite quando Gabriel saiu da loja, ele foi para casa a pé escutando música. Quando ele sente uma presença do lado era Beto de bicicleta e logo atrás veio Ricardo com sua bicicleta nova.

– Ei Biel, por onde você andou o dia todo?

– Eu estava ajudando o Joaquim na loja. Fui condenado a ficar com ele por um mês.

– Joaquim é aquele velho estranho maluco por relógios?

– Esse mesmo. Estou pagando sozinho o que vocês me fizeram fazer, então pega leve comigo que não to com cabeça.

– Relaxa maninho. – Ricardo parou a bicicleta e colocou a mão no ombro de Gabriel.

– Relaxa nada. Se não fosse por vocês eu não estaria assim. Aliás estão me devendo uma. Estou levando isso tudo sozinho.  – Gabriel afastou dos garotos

– Ok… você que sabe. Mano, ficou sabendo? A Amadinha está dando uma festa, vamos lá?

– Agora?

– É.

– Mas eu estou todo sujo. E está tarde.

– É só uma festa.

– Eu não vou. Tenho que dormir cedo e vocês só me botam em apuros ultimamente. Só quero ir para casa descansar.

– Amanhã é feriado. Relaxa, vamos. Vai estar todo mundo lá
– Ok vou ficar só um pouco.

Ricardo, Beto e Gabriel foram para a festa. Chegaram as 22 horas, comeram, conversaram e farrearam. Ele chegou em casa as 2:30 da manhã. Seus pais já estavam dormindo, e o cachorro acordou a casa com latidos.

– Meu filho, isso são horas de chegar?

– O senhor Joaquim me fez trabalhar até tarde. – Mentiu

– Que absurdo, vou amanhã falar com ele. Como ele pode fazer isso?

– Ah mãe, deixa para lá. Faz parte do meu castigo mesmo.

– Vá já dormir. Nem pense em ligar o computador, ouviu mocinho?

– Sim mãe.  – Gabriel bateu a porta do quarto.

Gabriel ficou até tarde no celular conversando com a turma. Acordou atrasado com o celular grudado na cara. Foi uma luta fazer o formato sair do rosto.  Ele chegou tarde na lojinha. Joaquim já estava varrendo a porta da loja quando viu Gabriel correndo.

– Ah garoto, pensei que você não vinha hoje.

– Me atrasei um pouco mas já estou pronto para trabalhar.

– Ótimo, termine de varrer e me ajude com algumas caixas.

Gabriel terminou de varrer, ele estava exausto por causa da noite passada. Ele se pegou dando quatro cochiladas, sendo acordado quando sua cabeça abaixava.

– Dormiu pouco essa noite – Joaquim estava segurando uma xicara de chá.

– Eu estava estudando – Gabriel mentiu. Aliás essa era um de seus mais brilhantes talentos. Gabriel estava louco para ir para casa. Não aguentava esse velho chato. Só de pensar que seus amigos estão se divertindo no feriado e ele lá preso com um senhor sozinho maluco por relógios.

O tempo passava devagar. Gabriel estava sentado em um banquinho mexendo no celular quando escuta um barulho vindo de dentro, ele se assusta e vai lá ver.

Gabriel abiu a porta de madeira e viu Joaquim de costas para uma mesa, ele foi se aproximando. Em cima da mesa estava um relógio de bolso antigo, era um legitimo Tissot, uma lupa gigante ficava em cima entre Joaquim e o relógio. A lupa tinha detalhes de dourado, e ele segurava em cada mão um alicate e uma chave Philips.

– Joaquim, o senhor está bem?

– Ah sim, estou. Apenas esbarrei na minha caixa de ferramentas.

– O que o senhor está fazendo?

– O que você acha? Estou consertando.

– Legal.

– Na minha época quando algo quebrava, éramos ensinados a consertar.

Gabriel apesar de sempre ser adepto a modernidade, achou fascinante o relógio aberto com todas aquelas engrenagens.

– Você não dormiu tarde pois estava estudando, não é?

– Como você sabe?

– Eu não nasci ontem. Que garoto estuda em véspera de feriado? Até eu que era o primeiro da turma não estudava no feriado.

– Tem razão… Fui em uma festa com alguns amigos.

– Não devia ter ido dormir tarde…

– Eu sei. Mas a festa foi ótima.

– Mas agora está aqui com sono. Essa é as consequências. Se você não tivesse pichado o muro, estaria agora mesmo com seus amigos se divertindo, invés de aguentar um velho chato fanático por relógios.

– Sabe senhor…

– Por favor me chame de Joaquim.

– Joaquim, para falar a verdade não estava sozinho pichando o muro.

– Eu sei.

– Como você sabe?

– Está na cara que não é possível apenas uma pessoa fazer algo daquele jeito, mas por qual razão não dedurou seus amigos?

– Ah eles são meus amigos. Não podia fazer isso com eles.

– Será que eles fariam o mesmo por você?

– Ah com certeza – Havia um ar de dúvida na afirmação de Gabriel.

– É mais fácil derrubar que levantar.

Depois de refletir bastante sobre a conversa que teve com Joaquim, Gabriel começou a ponderar se valia a pena manter a amizade. Uma coisa aconteceu que deixou ele muito chateado e então percebeu que era impraticável continuar com eles. Um dia seus amigos pegaram um novato e amararam só de cueca na arvore do colégio.

Ele começou a passar mais tempo na loja. Mesmo após ter cumprido a pena, ele conversou com seus pais e eles permitiram ele continuar trabalhando. Beto e Renato e Drica chamavam ele para sair e farrear e ele negava. Dizia que estava trabalhando na loja e não podia sair, que estava estudando, indo a igreja. Ele deu um tempo na amizade.

Com o tempo Gabriel começou a aprender o valor das coisas. Com o tempo viu que Joaquim apesar de ser ranzinza tinha um bom coração. Passaram tardes e tardes conversando sobre as experiências na guerra, romances e sobre relógios.

Certa vez foram pescar. Gabriel nunca tinha ido pescar, estava os dois sozinhos dentro do riacho segurando a vara de pescar.

– Como está a escola Gabriel?

– Está ótima – mentiu

– Ah que bom. – Joaquim voltou a encarar a vara de pescar.

– Ok, menti. Meus amigos não falam mais comigo. Parece que não pertenço mais ao grupo deles. Até já ameaçaram fazer algo com o senhor, mas acredito que era apenas conversa fiada.

– Vai ver você amadureceu e não pertence mais a esse grupo. Sabe quando eu era criança fui na fazenda do meu avô e ele me mostrou um casulo de borboleta; ele me explicou que a larva era um animal completamente imaturo e inútil e só destruía o que via. Após se cansar das besteiras que fez, resolve subir em uma folha e lá entra em um período de provação, um período de dor e sofrimento, para renascer uma criatura bela.

– Você tem razão. Antes eu gostava das brincadeiras que fazíamos, gostava de namorar garotas fúteis que só queria sexo; colocar apelidos maldosos em colegas menos populares; matar aula para nadar no riacho, não queria saber de estudar. Mas hoje em dia não acho divertido colocar apelidos, bater em colegas, pichar muros ou até mesmo colar na prova. Prefiro ler um bom livro, conversar coisas interessantes, fiz novas amizades, consigo ajudar minha família em casa, sou responsável, melhorei nos estudos, gosto de jogar videogame e não me envolvo mais em confusão.

A linha deu um leve puxão, era uma truta que mordeu a minhoca que estava preso no anzol, Gabriel puxou a linha e o peixe veio. Voltaram para a cabana e Joaquim ensinou o garoto a jogar xadrez.

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